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Casa Morgado Esporão

A casa, conhecida no registo arqueológico como “Antiga Casa dos Senhores do Morgado do Esporão”, foi adquirida em abril de 2015 à família Fernandes, uma família com longa tradição de exploração agrícola em vastas propriedades (“latifúndios”) na região do Alentejo. Localmente, o edifício era conhecido como a casa do “menino de oiro”, alcunha do antigo proprietário João Lopes Fernandes (1905–1973). Não tendo filhos, os seus pais prometeram que fariam uma oferta correspondente ao peso da criança em ouro, caso fossem abençoados com um herdeiro. A promessa foi mais tarde paga a Nossa Senhora do Ó, figura feminina grávida que continua a ser venerada na Sé de Évora.

As origens da casa são, contudo, muito mais antigas. Registos publicados apontam para a posse, já no século XV ou XVI, de partes do rés-do-chão do edifício pelo cavaleiro da Casa de Bragança Álvaro Mendes de Vasconcelos, conhecido como o 4.º Morgado do Esporão. Mendes de Vasconcelos serviu o rei D. João III e foi embaixador de Portugal em Madrid durante 12 anos, sendo presença regular na corte do imperador Carlos V. A sua segunda mulher, D. Guiomar de Melo, serviu como dama de companhia da imperatriz Isabel de Portugal, esposa de Carlos V e rainha-regente de Espanha. Na qualidade de embaixador de D. João III, foi também incumbido de negociar com o papa Paulo III o estabelecimento da Inquisição em Portugal. Mendes de Vasconcelos era senhor da propriedade do Esporão, um posto militar avançado junto de Reguengos de Monsaraz que protegia a fronteira do reino contra possíveis invasões espanholas. A célebre torre da propriedade do Esporão foi construída por ordem de Álvaro Mendes de Vasconcelos no final do século XV. Desde 1973, a propriedade pertence a outra família e é hoje sobretudo conhecida pela produção de vinho e azeite.

Existem, no entanto, vestígios de arquitetura do século XIV em partes da cave e numa das cozinhas. Fontes locais sugerem que o local albergou originalmente um palácio pertencente a nobres ao serviço da corte do rei D. João I e da rainha Filipa de Lencastre. Nos finais do século XIV, diz-se que a infanta Isabel, filha de D. João e de D. Filipa, ali terá vivido para escapar à peste negra que assolou Lisboa e matou a sua mãe. Com efeito, a rua onde o edifício se localiza tem o nome da infanta Isabel, embora tenha sido construída sobre uma via romana muito mais antiga, alinhada com a porta romana da cidade e datável de época tão recuada como o século II antes de Cristo.

Quando a casa foi adquirida em 2015, encontrava-se desocupada havia quase 40 anos. Partes do edifício corriam risco de degradação e colapso. A cobertura estava a ceder em várias secções e alguns frescos tinham sido arruinados pela humidade que se infiltrava através dos telhados e das paredes. O caruncho começava a consumir os soalhos de madeira, bem como portas e janelas.

O projeto de conservação e restauro da casa está a ser desenvolvido em estreito diálogo com uma equipa de arquitetos, engenheiros, o proprietário do edifício e as autoridades locais (a Direção Regional de Cultura e a Câmara Municipal de Évora). Nas palavras de um arquiteto, a casa representa “uma folie de tempos e estilos; eixos romanos, arcos manuelinos, frescos barrocos, tetos oitocentistas e paisagens naïf, ligados entre si de forma pacífica.”

Segue-se abaixo um texto escrito em português por um reputado historiador local sobre a casa:

TRAVESSA DAS CASAS PINTADAS N.º 6

Antiga moradia dos senhores do morgado do Esporão, foi alienada no ano de 1584 pelos descendentes de Álvaro Mendes de Vasconcelos e D. Guiomar de Melo, a D. Angela de Noronha, viúva de António Lobo e mãe de Luís Lopes Lobo e D. Maria de Noronha, menina esta a que se destinou como arras, pelo seu matrimónio com o fidalgo António de Mendonça. Importou esta transacção em 4 000 cruzados. Nas casas habitaram o inquisidor Jerónimo Teixeira, o cónego Sande e D. Luísa de Vasconcelos, filha de D. Guiomar, instituidora de um oratório particular dedicado a N.ª S.ª da Piedade, que em 1591 estava decorado com pinturas murais executadas por aquela nobre dama. O imóvel, penhorado em 1609 a António de Mendonça, a instâncias judiciais dos herdeiros de Bartolomeu Sanches, foi à praça no ano seguinte e arrematado por 150 000 rs. pelo cónego Álvaro Ferreira Magro; todavia, em 1618 entrou na posse plena do Desembargador Diogo Ferreira Magro, irmão daquele sacerdote, segundo documento lavrado pelo tabelião Diogo de Oliveira. Em 1654 era patrimonial do dr. Francisco Barreto de Figueiredo, que nele fez testamento no dia 6 de Fevereiro do mesmo ano escriturado pelo tabelião João Casqueiro de Sande. Este fidalgo era tio de Álvaro Ferreira, habitador do velho paço torreado da Rua Nova. Foi, durante muitos anos residência da benemérita D. Leonor de Oliveira Fernandes, que na frontaria do edifício é lembrada por uma lápida de mármore afixada em 3 de Março de 1952. Obras sucessivas de conservação modificaram totalmente o imóvel que conserva, todavia, nos alçados interiores, vestígios de arquitectura quinhentista; antigo é o portal exterior do pátio, de aparelho granítico e de boas proporções. 

 

(Tulio Espanca - Inventário Artistico de Portugal – Concelho de Évora – I volume pag.138 – Lisboa 1966)

 

 

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